Quem vive a rotina de uma serventia sabe: quando a inspeção chega, quase nunca é “um grande erro” que derruba a tranquilidade, é a soma de detalhes que ficaram invisíveis no dia a dia. E o mais frustrante é que, olhando depois, parecia óbvio.
O “problema aparecer tarde” não é falta de capacidade técnica. É um efeito previsível de rotina, volume e prioridades concorrentes. A boa notícia: dá para virar esse jogo com método de atenção aos detalhes, evidências e controles simples (mas consistentes).
Quando um processo é executado todos os dias, ele tende a ser tratado como “já resolvido”. O risco aqui é a normalização do desvio: uma exceção vira padrão, e o padrão vira hábito.
É assim que surgem apontamentos “simples” e indesejados, porque a inspeção enxerga com um olhar diferente: o olhar de quem não está imerso na rotina.
A rotina é puxada, e é natural priorizar atendimento, prazos e demandas imediatas. O problema é que inspeção não avalia só “fizemos”, ela cobra “fizemos e conseguimos demonstrar com consistência”.
Sem um sistema mínimo de evidências (checkpoints, registros, revisões), a equipe se vê tendo que “reconstruir” decisões e atos, e isso costuma acontecer tarde.
Alguns riscos não geram dor no momento. Eles só viram problema quando alguém confere:
E tudo isso é exatamente o tipo de coisa que inspeções e correições observam com atenção.
A seguir estão exemplos clássicos de pontos que costumam ser percebidos “tarde demais”, não por complexidade, mas por estarem espalhados na rotina:
Em visitas e correições, uma recorrência é o não cumprimento adequado da afixação de documentos e informações essenciais em mural com fácil acesso e visibilidade ao público, conforme o Código de Normas de SC. Isso compromete transparência e tende a gerar apontamentos.
Por que aparece tarde?
Porque mural não “quebra” nada. Ele só é lembrado quando alguém confere com checklist de inspeção.
Como prevenir com rotina:
Outra irregularidade frequente é a ausência de lançamento e atualização de informações na área restrita do Portal do Extrajudicial, o que compromete fiscalização e transparência e gera apontamentos.
Por que aparece tarde?
Porque a serventia funciona mesmo com o portal desatualizado, até o momento em que a inspeção cruza informações e percebe lacunas.
Como prevenir com rotina:
Cobrança irregular (a maior ou a menor) aparece como situação grave em diversas serventias e recebe atenção especial em correições.
O risco não é só técnico; afeta diretamente o usuário e a confiança no serviço prestado.
O mais comum é acontecer por “detalhes operacionais” como preenchimentos equivocados, aplicação indevida de reduções e classificação inadequada do ato.
Por que aparece tarde?
Porque o erro pode ficar diluído em volume, e só aparece quando alguém audita padrão, amostra e consistência.
Como prevenir com rotina:
Cada escritura tem particularidades e exigências; a ausência ou preenchimento incorreto de informações essenciais pode gerar nulidade, insegurança jurídica e questionamentos, e a Corregedoria dá atenção especial a isso nas correições.
Por que aparece tarde?
Porque o ato “saiu”, o atendimento fluiu, mas a inspeção vai “linha por linha” com padrão normativo.
Como prevenir com rotina:
Os livros são patrimônio documental e a Corregedoria dedica atenção minuciosa à integridade, organização e conformidade, sendo comuns irregularidades como rubrica em margem inadequada, ausência de termos de abertura/encerramento, falta de assinatura do oficial e problemas de conservação.
Por que aparece tarde?
Porque livro também não “quebra” a operação no dia a dia — até o momento em que alguém confere formalidade e conservação.
Como prevenir com rotina:
Aqui vai um modelo simples e eficiente (ABM-friendly: orientado a decisão e execução):
Nada “some” quando tem responsável.
Defina 4 donos (pode ser a mesma pessoa em serventias menores, mas com clareza):
Não é relatório. É rastreabilidade:
Isso reduz muito o “aparecer tarde”, porque o problema deixa de ser invisível.
Mesmo com rotina forte, existe um limite: quando a equipe está imersa, alguns pontos cegos permanecem. É aí que o Audit se torna valioso: ele traz o olhar externo, normativo e sistemático — e ajuda a transformar riscos difusos em prioridades claras.
Na prática, o Audit funciona como:
Se a sua serventia quer parar de descobrir ajustes “em cima da hora”, o caminho é simples (e poderoso): rotina de detalhes + evidência mínima + revisão externa periódica. Nessa combinação, o Audit deixa de ser “uma auditoria” e vira um parceiro de segurança e consistência operacional.