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Do “custo do sistema” ao lucro: como medir o retorno da tecnologia na serventia

Do “custo do sistema” ao lucro: como medir o retorno da tecnologia na serventia

22/01/26

Transformação digital no cartório não é só modernização. É capacidade operacional, controle e previsibilidade convertidos em resultado financeiro. Quando a serventia reduz retrabalho, encurta o tempo por ato, melhora a estabilidade e organiza fluxos, ela passa a produzir mais com a mesma estrutura, reduz custos diretos e evita perdas que quase sempre aparecem tarde.

O ponto central é simples: tecnologia só vira investimento quando o cartório consegue responder, com números, três perguntas. Quanto eu economizo, quanto eu consigo produzir a mais e quanto risco eu deixo de carregar.

Este artigo é um guia completo. Além de explicar onde nasce o retorno, ele já traz o playbook de cálculo dentro do próprio texto, com modelos prontos para você copiar e usar na rotina.


1) Onde nasce o retorno financeiro da transformação digital

1.1 Otimização de processos: o ganho que parece pequeno, mas escala rápido

No cartório, minutos viram dinheiro. O retorno aparece quando a tecnologia reduz tempo de atendimento, tempo de conferência, tempo de busca de documentos e, principalmente, o retrabalho que se espalha pelo dia. O fluxo fica mais previsível e a equipe deixa de operar no modo “interrupção constante”.

Exemplos típicos de ganhos mensuráveis:

  • Redução do tempo médio por atendimento e por ato

  • Redução de exigências internas e reaberturas de atendimento

  • Redução de filas e gargalos por triagem e pré cadastro

  • Redução de etapas repetidas como digitação em mais de um lugar e conferências duplicadas

  • Padronização de rotinas com checklist digital e rastreabilidade

O ganho não é “fazer menos”. É fazer melhor, com menos dispersão, e liberar capacidade para produzir.


1.2 Redução de custos: o ROI direto que aparece no financeiro

Alguns custos diminuem de forma objetiva quando o fluxo melhora:

  • Papel, impressão e insumos de balcão

  • Correios, deslocamentos e logística de entrega

  • Armazenamento físico e tempo de busca

  • Hora extra e banco de horas por gargalos recorrentes

  • Custos emergenciais ligados a instabilidade e correções de última hora

Mesmo quando o papel ainda existe por exigências práticas, digitalizar etapas reduz desperdício e acelera a rotina.


1.3 Aumento de receita: mais capacidade, melhor experiência, menos desistência

Emolumentos têm regras, mas a capacidade do cartório de atender demanda, com qualidade e sem travar, impacta diretamente o resultado.

O aumento de receita costuma vir por três vias:

  • Mais capacidade, o cartório absorve mais volume sem contratar no mesmo ritmo

  • Melhor experiência, aumenta conversão e reduz desistência e retrabalho do usuário

  • Novos canais e serviços, quando a serventia estrutura o digital e reduz fricção

A transformação digital não cria demanda do nada, mas ela evita perda de demanda e aumenta a capacidade de atender o que já existe.


1.4 Custo evitado: risco também é número

No extrajudicial, o risco não é abstrato. Ele vira retrabalho, desgaste, correção, parada e, em alguns casos, apontamentos. Tecnologia gera retorno quando reduz a probabilidade de eventos que custam caro, mesmo que ocorram poucas vezes ao ano.

Exemplos:

  • Falhas por falta de rastreabilidade

  • Indisponibilidade, lentidão e perda de produtividade

  • Problemas de backup e recuperação

  • Incidentes de segurança da informação

  • Inconsistências que geram correções e reprocessamentos

A maneira correta de colocar isso no cálculo é usar valor esperado, que será mostrado no playbook.


2) O erro clássico: calcular ROI só por economia de papel

Se você medir retorno apenas por itens como impressão e insumos, a tecnologia pode parecer cara. O ROI real do cartório quase sempre é a soma de três blocos: economia direta, ganho de capacidade e risco evitado. Quando os três entram na conta, a decisão fica técnica e defensável.


3) Playbook completo para calcular o ROI da transformação digital no cartório

O objetivo aqui é te dar um método prático, replicável e simples. Você pode aplicar em um único processo ou em um conjunto de rotinas. O segredo é começar pequeno, medir bem e escalar.

Passo 1. Defina escopo com foco em dor real

Escolha 1 a 3 fluxos que tenham alto volume ou alto retrabalho. Exemplos comuns:

  • Atendimento e triagem no balcão

  • Qualificação e conferência documental

  • Emissão de certidões e comunicação com partes

  • Arquivamento, busca e organização do acervo

  • Rotinas administrativas como financeiro, repasses e relatórios

  • Segurança e disponibilidade, monitoramento e backup

Uma boa regra: comece pelo fluxo que tem fila, interrupções e reabertura frequente.


Passo 2. Meça a linha de base por 7 a 14 dias

Você não precisa de perfeição, precisa de realidade. Medir por amostra já resolve.

Registre:

  • Volume mensal do processo, atos ou atendimentos por mês

  • Tempo médio por unidade, minutos por ato ou por atendimento

  • Percentual de retrabalho, quantos casos voltam para correção ou reprocesso

  • Custos diretos mensais, impressão, correios, armazenamento, hora extra

  • Eventos de risco, paradas, instabilidade, incidentes, apontamentos e correções

Dica de rotina: pegue 3 dias típicos e 1 dia de pico para estimar média e variação.


Passo 3. Liste os custos do projeto com visão de custo total

O ROI precisa comparar benefício com custo total. Não considere só mensalidade.

Separe em:
Custos iniciais:

  • Parametrização e implantação

  • Migração

  • Treinamento

  • Equipamentos, se houver

  • Ajustes de processo, se houver consultoria

Custos recorrentes:

  • Licença e suporte

  • Integrações

  • Monitoramento e serviços associados

Modelo simples de custo total em 12 meses:
TCO em 12 meses = Implantação + (Mensalidade x 12)


Passo 4. Calcule benefícios em três blocos

Agora você transforma operação em dinheiro.

Bloco A: economia direta

Use quando o custo efetivamente cai.

Fórmula:
Economia mensal = soma de (custo atual x percentual de redução)

Onde costuma entrar:

  • Papel e impressão

  • Correios e deslocamentos

  • Hora extra

  • Logística e armazenamento

Exemplo prático:
Se impressão custa R$ 1.500 por mês e você estima reduzir 25%, economia estimada é R$ 375 por mês.


Bloco B: ganho de capacidade

Aqui está o coração do ROI no cartório. Você mede tempo liberado e monetiza.

  1. Calcule horas liberadas no mês:
    Horas liberadas por mês = (Tempo antes menos Tempo depois) x Volume mensal dividido por 60

  2. Transforme horas liberadas em valor. Você tem duas formas, escolha a que faz mais sentido para sua gestão.

Forma 1: valor pelo custo hora da equipe
Valor mensal de eficiência = Horas liberadas x Custo médio hora da equipe

Forma 2: valor por capacidade produtiva
Atos adicionais estimados = Horas liberadas divididas pelo tempo médio por ato em horas
Receita incremental = Atos adicionais x Margem de contribuição média por ato

A margem de contribuição média pode ser uma aproximação conservadora. O objetivo não é discutir centavos, é revelar ordem de grandeza.


Bloco C: risco evitado com valor esperado

Esse bloco coloca números em eventos que custam caro.

Fórmula anual:
Valor esperado anual = Probabilidade do evento x Impacto financeiro do evento

Fórmula mensal:
Risco evitado mensal = Valor esperado anual dividido por 12

Como estimar impacto financeiro:

  • Horas de equipe em retrabalho e correções

  • Perda de produtividade por parada

  • Suporte emergencial

  • Correções, reorganização, reprocessamento

  • Qualquer custo real que apareça quando o evento ocorre

Exemplo rápido:
Se você estima 20% de chance ao ano de um evento que custa R$ 15.000, o valor esperado anual é R$ 3.000 e o mensal é R$ 250.


Passo 5. Feche o cálculo com ROI e Payback

Agora você soma tudo.

Benefício mensal total = Economia direta + Eficiência ou receita incremental + Risco evitado

Benefício mensal líquido = Benefício mensal total menos custos recorrentes mensais

Payback em meses:
Payback = Custo de implantação dividido pelo benefício mensal líquido

ROI em 12 meses:
ROI = (Benefícios em 12 meses menos custos em 12 meses) dividido pelos custos em 12 meses, multiplicado por 100

Onde:
Benefícios em 12 meses = Benefício mensal total x 12
Custos em 12 meses = Implantação + (Mensalidade x 12)


4) Modelos prontos para aplicar no seu cartório

A ideia é você copiar este bloco e preencher.

Modelo 1: linha de base e resultado esperado

  • Processo escolhido:

  • Volume mensal:

  • Tempo médio antes em minutos:

  • Tempo médio depois em minutos:

  • Retrabalho antes em percentual:

  • Retrabalho depois em percentual:

Modelo 2: custos

  • Implantação: R$

  • Mensalidade: R$

  • Integrações e extras mensais: R$

  • TCO 12 meses: R$

Modelo 3: benefícios

Economia direta:

  • Impressão e insumos: R$

  • Correios e deslocamentos: R$

  • Hora extra: R$

Ganho de capacidade:

  • Horas liberadas por mês:

  • Custo médio hora: R$

  • Valor mensal de eficiência: R$

Ou, se for por capacidade:

  • Atos adicionais estimados:

  • Margem média por ato: R$

  • Receita incremental mensal: R$

Risco evitado:

  • Evento 1, probabilidade anual, impacto e valor esperado mensal: R$

  • Evento 2, probabilidade anual, impacto e valor esperado mensal: R$

Totais:

  • Benefício mensal total: R$

  • Custos mensais recorrentes: R$

  • Benefício mensal líquido: R$

Payback:

  • Custo implantação: R$

  • Payback estimado: meses

ROI 12 meses:

  • ROI estimado: %


5) Exemplo completo com números fáceis de adaptar

Cenário: melhoria do atendimento com pré cadastro e organização do fluxo documental

Dados:

  • Volume: 1.200 atendimentos por mês

  • Tempo antes: 12 minutos

  • Tempo depois: 9 minutos

  • Redução: 3 minutos por atendimento

Horas liberadas:
Horas liberadas = (12 menos 9) x 1.200 dividido por 60
Horas liberadas = 60 horas por mês

Monetização por custo hora:
Custo médio hora: R$ 35
Valor mensal de eficiência = 60 x 35
Valor mensal de eficiência = R$ 2.100

Economia direta:

  • Redução de hora extra: R$ 600 por mês

  • Redução de insumos: R$ 300 por mês
    Economia direta = R$ 900 por mês

Receita incremental por capacidade:
Suponha incremento conservador de 80 atos por mês com margem média de R$ 25 por ato
Receita incremental = 80 x 25
Receita incremental = R$ 2.000 por mês

Benefício mensal total:
R$ 2.100 + R$ 900 + R$ 2.000 = R$ 5.000 por mês

Custos:

  • Implantação: R$ 8.000

  • Mensalidade: R$ 1.200 por mês

Benefício mensal líquido:
R$ 5.000 menos R$ 1.200 = R$ 3.800 por mês

Payback:
R$ 8.000 dividido por R$ 3.800
Payback aproximado: 2,1 meses

Esse exemplo mostra o que acontece na prática. Um ganho de 3 minutos parece pouco, mas escala para dezenas de horas no mês e destrava capacidade.


6) O que acompanhar para provar o ROI mês a mês

Sem acompanhamento, o ROI vira um slide. Com acompanhamento, vira cultura de gestão.

Três indicadores simples:

  • Tempo médio por atendimento e por ato

  • Taxa de retrabalho, reabertura e correções

  • Volume atendido por equipe e por período

Se você quiser um quarto indicador, escolha estabilidade: dias com lentidão, paradas e interrupções.


Conclusão: tecnologia não é custo, é estratégia quando vira métrica

Cartório não precisa “digitalizar tudo” para ter retorno. Precisa escolher pontos críticos, medir linha de base, implementar com critério e acompanhar. O ROI aparece quando você traduz tempo e retrabalho em valor, e quando inclui risco evitado como parte do cálculo.

Se a serventia quer iniciar um ciclo de mudança com segurança, a melhor decisão é começar com um processo, aplicar o playbook, comprovar resultado e replicar. É assim que a transformação digital deixa de ser discurso e vira caixa, previsibilidade e capacidade real.

fonte: Officer Soft